União Brasil-PP e Republicanos decidiram não aderir formalmente ao candidato do PL à Presidência no primeiro turno, mas levantamento mostra que acordos regionais abrem espaço para Flávio Bolsonaro em parte dos Estados; estratégia evidencia diferença entre alianças nacionais e disputas locais em 2026
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta um cenário complexo na montagem dos palanques estaduais para as eleições de 2026. Partidos importantes do chamado Centrão decidiram manter neutralidade na disputa nacional, evitando uma aliança formal tanto com o PL quanto com o PT, enquanto seus diretórios estaduais seguem caminhos próprios de acordo com as condições políticas de cada região. (Agenda do Poder)
A situação envolve principalmente a federação formada por União Brasil e PP e o Republicanos. As siglas possuem candidatos competitivos aos governos estaduais, bancadas relevantes no Congresso e estruturas locais que seriam importantes para qualquer presidenciável interessado em ampliar sua presença territorial.
A neutralidade, entretanto, não significa que todos esses partidos estejam igualmente distantes de Flávio Bolsonaro nos Estados. Levantamento publicado pelo Congresso em Foco nesta semana indica que, mesmo sem apoio presidencial formal, União-PP e Republicanos dão regionalmente mais espaço ao candidato do PL do que ao presidente Lula (PT). (Congresso em Foco)
O resultado cria uma situação aparentemente contraditória: o Centrão não integra oficialmente a coligação presidencial de Flávio, mas parte significativa de suas estruturas estaduais mantém relações políticas com o campo da direita.
Republicanos decidiu pela neutralidade
O Republicanos oficializou sua posição durante a convenção nacional realizada em 4 de agosto.
Segundo informações divulgadas após a reunião, 17 diretórios estaduais defenderam a neutralidade, nove preferiam uma aliança nacional com o PL e apenas um indicou preferência por caminhar com Lula. (Folha de S.Paulo)
O resultado levou o partido a rejeitar uma coligação presidencial formal com Flávio Bolsonaro.
A decisão foi relevante porque integrantes do Republicanos possuem relações próximas com diferentes grupos da direita. O partido abriga nomes que participaram do governo Jair Bolsonaro e lideranças estaduais que mantêm diálogo com o PL.
Ao mesmo tempo, a legenda possui interesses eleitorais distintos dependendo do Estado. Essa diversidade ajuda a explicar a opção por não impor nacionalmente um único candidato presidencial.
União Brasil e PP também liberaram diretórios
Situação semelhante ocorre com União Brasil e PP.
A federação formada pelos dois partidos decidiu não entrar oficialmente na coligação presidencial de Flávio Bolsonaro e optou por liberar seus candidatos estaduais para estabelecer os apoios mais adequados às articulações locais. (Folha de S.Paulo)
Na prática, um candidato a governador da federação pode estar próximo do PL num Estado enquanto outro pode estabelecer alianças com partidos diferentes em outra região.
Essa flexibilidade é particularmente importante nas eleições de 2026 porque as disputas estaduais apresentam configurações muito diferentes.
Em determinados Estados, o principal adversário de um candidato do Centrão pode pertencer ao campo governista. Em outros, a competição pode ocorrer justamente contra uma candidatura do PL.
Neutralidade não significa rompimento com a direita
A análise dos acordos estaduais mostra que seria impreciso interpretar a neutralidade nacional como um rompimento completo entre o Centrão e Flávio Bolsonaro.
O levantamento do Congresso em Foco publicado em 12 de agosto mostra que a neutralidade das cúpulas partidárias não foi reproduzida uniformemente pelos diretórios estaduais. Existem regiões nas quais candidatos de União-PP ou Republicanos compartilham alianças ou espaços políticos com o candidato do PL. (Congresso em Foco)
Esse cenário evidencia uma característica recorrente da política brasileira: alianças presidenciais e estaduais nem sempre seguem a mesma lógica.
Um partido pode permanecer oficialmente neutro na corrida pelo Palácio do Planalto enquanto seus candidatos regionais recebem ou oferecem apoio a determinado presidenciável.
Para Flávio Bolsonaro, esses acordos locais podem compensar parcialmente a ausência das siglas na coligação nacional.
Decisão afeta estrutura nacional da campanha
Ainda assim, não conseguir formalizar uma grande coligação com partidos do Centrão produz consequências concretas.
As alianças partidárias influenciam a estrutura disponível para uma campanha presidencial, incluindo tempo de propaganda eleitoral e articulação das máquinas partidárias nos Estados.
A Folha informou, após as convenções, que a ausência de Republicanos, União-PP e Podemos na coligação deixaria o PL sem apoio formal dos principais partidos do Centrão e poderia reduzir o tempo de televisão disponível para Flávio Bolsonaro em comparação com Lula. (Folha de S.Paulo)
A televisão não possui atualmente a mesma centralidade eleitoral de décadas anteriores devido ao crescimento das redes sociais, mas continua sendo uma ferramenta importante para alcançar eleitores fora das bases digitais mais mobilizadas.
Estratégia regional é pragmática
Para os partidos do Centrão, a decisão também possui uma lógica eleitoral própria.
União Brasil, PP e Republicanos precisam eleger governadores, senadores e grandes bancadas de deputados federais e estaduais. Em determinadas regiões, associar obrigatoriamente todos os candidatos a um único presidenciável poderia criar dificuldades.
A neutralidade oferece liberdade para adaptar as campanhas à realidade eleitoral de cada Estado.
Isso explica por que partidos podem manter distância institucional de Flávio Bolsonaro nacionalmente e, simultaneamente, estabelecer acordos com aliados do candidato em disputas estaduais. (#Acesse Política)
A estratégia também permite que as legendas preservem canais políticos com diferentes campos para uma eventual segunda volta presidencial.
Nordeste pesa nos cálculos partidários
Uma das preocupações dos dirigentes está relacionada às diferenças regionais do eleitorado.
Durante as discussões internas do Republicanos, por exemplo, houve preocupação de que um apoio nacional obrigatório a Flávio Bolsonaro pudesse prejudicar candidatos a deputado federal principalmente no Nordeste. (Folha de S.Paulo)
Na Paraíba, o presidente da Câmara, Hugo Motta, integrante do Republicanos, declarou apoio à reeleição de Lula, mesmo com a presença de outras lideranças do partido ligadas à direita. (Jornal Grande Bahia (JGB))
O exemplo mostra como a estratégia nacional precisa conviver com interesses regionais.
Em Estados nos quais Lula possui maior força eleitoral, candidatos do Centrão podem evitar uma associação exclusiva ao PL. Em regiões mais favoráveis à direita, ocorre o movimento inverso.
São Paulo apresenta cenário diferente
São Paulo ajuda a demonstrar essa diversidade.
O presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, explicou depois da convenção que sua posição pessoal e a posição do diretório paulista eram favoráveis a Flávio Bolsonaro, apesar de o partido nacionalmente ter escolhido a neutralidade. (Folha de S.Paulo)
O caso paulista é particularmente importante devido ao tamanho do eleitorado do Estado e à presença do governador Tarcísio de Freitas no Republicanos.
Assim, a ausência de coligação nacional não impede aproximações regionais entre integrantes do partido e a candidatura presidencial do PL.
Essa situação tende a repetir-se em diferentes formatos pelo país.
Minas Gerais mostra dificuldade das alianças estaduais
Em Minas Gerais, terceiro maior colégio eleitoral brasileiro, a configuração política também evidencia como as decisões estaduais podem escapar da lógica nacional.
O senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, afirmou nesta semana que sua indefinição sobre a candidatura ao governo acabou fazendo com que perdesse espaço político. Durante esse período, o PL decidiu lançar Flávio Roscoe ao governo mineiro. (UOL Notícias)
Cleitinho afirmou que pretende construir um palanque independente no Estado.
O episódio demonstra que pertencer a um partido associado ao campo conservador não significa automaticamente receber o apoio do PL numa eleição estadual.
Os interesses locais, candidaturas próprias e negociações entre partidos continuam determinando a composição das chapas.
Flávio também constrói alianças para o Senado
Paralelamente à disputa presidencial, Flávio Bolsonaro procura fortalecer candidaturas ao Senado alinhadas ao seu projeto político.
Uma lista divulgada pelo candidato reúne 47 nomes apoiados para o Senado em todo o país. Desses, 33 pertencem ao próprio PL, enquanto aproximadamente 30% são integrantes de partidos normalmente classificados dentro do Centrão. (Folha de S.Paulo)
A estratégia ganha peso especial em 2026 porque serão renovadas duas das três cadeiras do Senado de cada Estado.
Isso significa que 54 das 81 vagas da Casa estarão em disputa.
Para qualquer futuro presidente, a composição do Senado será fundamental para aprovação de projetos, indicações de autoridades e relação institucional com outros Poderes.
Lula possui vantagem na quantidade de palanques
A fragmentação do Centrão também produz diferenças entre as estruturas estaduais dos principais candidatos presidenciais.
Um levantamento publicado em 8 de agosto apontou Lula com 26 palanques estaduais consolidados, enquanto Flávio Bolsonaro aparecia com 16 articulações. (Brasil de Fato)
Esses números precisam ser interpretados com cautela porque a existência de um palanque não significa necessariamente apoio exclusivo ou capacidade equivalente de mobilização.
Um governador ou candidato estadual pode, por exemplo, permitir a presença de mais de um presidenciável em sua campanha.
Ainda assim, o levantamento mostra uma das dificuldades estratégicas enfrentadas pelo candidato do PL: transformar sua força eleitoral e digital numa estrutura partidária nacional mais ampla.
Centrão preserva liberdade para o segundo turno
A neutralidade também oferece aos partidos uma vantagem estratégica: esperar o resultado da primeira etapa da eleição antes de assumir uma posição nacional definitiva.
No caso do Republicanos, a convenção delegou à Executiva Nacional poderes para tomar novas decisões posteriormente. Isso deixa aberta a possibilidade de a legenda definir formalmente um apoio caso a eleição presidencial avance para o segundo turno. (Folha de S.Paulo)
Esse comportamento é importante porque os partidos podem observar não apenas quem chega à etapa final, mas também o desempenho das próprias candidaturas ao Congresso e aos governos estaduais.
A negociação política após o primeiro turno poderá, portanto, alterar significativamente o mapa das alianças.
Cenário mostra fragmentação do campo político
A fotografia das alianças em 13 de agosto de 2026 revela que os blocos políticos brasileiros não funcionam como estruturas completamente homogêneas.
O PL possui Flávio Bolsonaro como candidato presidencial e concentra grande parte do eleitorado identificado com o bolsonarismo. União Brasil, PP e Republicanos, por outro lado, possuem segmentos conservadores e de centro-direita, mas preferiram preservar autonomia na eleição presidencial.
Essa diferença cria uma disputa interna pelo eleitor de direita e centro-direita, ao mesmo tempo em que permite cooperação entre essas forças em determinadas eleições estaduais.
O resultado é uma campanha em dois níveis.
Nacionalmente, União-PP e Republicanos permanecem neutros e não fazem parte da coligação presidencial de Flávio Bolsonaro. Regionalmente, porém, integrantes dessas mesmas legendas mantêm acordos e palanques que podem beneficiar o candidato do PL em diversos Estados. (Congresso em Foco)
Para Flávio, o desafio nas próximas semanas será aproveitar essas alianças estaduais sem contar com o apoio institucional completo das legendas. Para o Centrão, a estratégia é preservar liberdade suficiente para disputar seus próprios interesses regionais e, ao mesmo tempo, manter abertas as possibilidades de negociação após o primeiro turno.





