Decisão do STF que condenou o ex-presidente completa um ano em meio a uma nova disputa presidencial, crise na Corte e protagonismo político de Flávio Bolsonaro.
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) completa um ano nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026, em um cenário político bastante diferente daquele existente no momento do julgamento. Bolsonaro permanece afastado da disputa eleitoral, enquanto seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tornou-se candidato à Presidência e assumiu papel central na representação eleitoral do bolsonarismo.
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do STF concluiu o julgamento da Ação Penal 2668 e condenou Bolsonaro e outros integrantes do chamado Núcleo 1 da tentativa de golpe de Estado. A pena do ex-presidente foi fixada em 27 anos e três meses, sendo 24 anos e nove meses de reclusão e dois anos e seis meses de detenção.
Um ano depois, o julgamento continua produzindo efeitos políticos. Bolsonaro cumpre prisão domiciliar desde março de 2026, segundo a Folha de S.Paulo, e possui restrições de visitas. Mesmo com a redução de sua atuação pública, o ex-presidente continua sendo uma referência política para seus apoiadores e para a campanha presidencial do filho.
O aniversário da condenação ocorre ainda em meio a uma grave crise institucional no próprio Supremo, alimentada pelas disputas internas relacionadas às investigações do Banco Master. Ao mesmo tempo, a proximidade das eleições de outubro recoloca o legado político de Bolsonaro no centro da disputa pelo Palácio do Planalto.
Por que Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF?
O julgamento que resultou na condenação de Bolsonaro foi concluído em 11 de setembro de 2025 pela Primeira Turma do Supremo. A ação analisou a atuação de oito integrantes do chamado Núcleo 1, apontado pela Procuradoria-Geral da República como o grupo central da tentativa de ruptura institucional ocorrida após as eleições de 2022.
Bolsonaro foi condenado pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A pena total estabelecida pelo colegiado chegou a 27 anos e três meses.
A decisão não foi unânime. O ministro Luiz Fux divergiu da maioria e votou pela absolvição de Bolsonaro das acusações. Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin formaram a maioria responsável pela condenação.
Outros integrantes do antigo governo e das Forças Armadas também foram condenados no mesmo processo. Entre eles estavam Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Almir Garnier, Anderson Torres, Alexandre Ramagem e Mauro Cid.
Após o julgamento, as defesas apresentaram recursos contra as decisões. O acórdão da condenação foi publicado pelo STF em outubro de 2025, formalizando os fundamentos adotados pela maioria da Primeira Turma.
A defesa de Bolsonaro continuou questionando decisões relacionadas ao processo. Um ano depois do julgamento, porém, a condenação permanece como um dos acontecimentos jurídicos de maior impacto sobre a trajetória política do ex-presidente.
Como o bolsonarismo chegou novamente à disputa pela Presidência?
A impossibilidade de Bolsonaro disputar novamente o Palácio do Planalto não retirou seu grupo político da corrida presidencial. Em 2026, Flávio Bolsonaro assumiu o papel de candidato presidencial ligado diretamente ao ex-presidente e passou a disputar o eleitorado identificado com o bolsonarismo.
Essa transferência de protagonismo transformou a eleição numa espécie de teste para a capacidade do movimento político de sobreviver eleitoralmente sem Jair Bolsonaro na urna. O ex-presidente continua funcionando como referência para parte significativa de seus apoiadores, enquanto Flávio tenta construir uma candidatura própria sem romper com o legado político do pai.
O senador também defende pautas diretamente relacionadas às consequências políticas e judiciais dos acontecimentos de 8 de Janeiro. Entre elas está a defesa de medidas que beneficiem condenados pelos ataques às sedes dos Poderes em Brasília.
Ao mesmo tempo, o cenário eleitoral permanece competitivo. Flávio Bolsonaro aparece como um dos principais adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida pelo Planalto, aumentando a importância das disputas envolvendo STF, Banco Master e investigações que alcançam diferentes setores políticos.
O próprio Flávio passou a enfrentar uma nova pressão jurídica nesta semana. Documentos tornados públicos em 11 de setembro revelaram que ele é investigado pelo STF num inquérito relacionado ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, no contexto das investigações envolvendo o Banco Master.
Flávio nega irregularidades. A existência de uma investigação não significa condenação nem comprovação dos crimes investigados, mas acrescenta um novo elemento jurídico à campanha presidencial do grupo político justamente no aniversário de um ano da condenação de Jair Bolsonaro.
O que mudou na política brasileira um ano depois da condenação?
Uma das principais mudanças está no próprio ambiente institucional do Supremo. A Corte chega ao aniversário da condenação de Bolsonaro enfrentando uma crise interna relacionada às investigações sobre o Banco Master e às divergências entre ministros sobre a condução das apurações.
O presidente do STF, Edson Fachin, determinou nesta sexta-feira a retirada do sigilo de milhares de páginas relacionadas ao caso Master. As investigações alcançam empresários, integrantes do sistema financeiro, autoridades e políticos de diferentes campos.
Esse cenário produziu uma situação politicamente incomum. Parte da direita mantém críticas duras ao Supremo e especialmente a Alexandre de Moraes, mas setores conservadores passaram a demonstrar apoio ao ministro André Mendonça diante de sua atuação nas investigações recentes.
A condenação de Bolsonaro, portanto, completa um ano sem ter encerrado a disputa política em torno do julgamento. Para apoiadores do ex-presidente, críticas à atuação do Supremo permanecem como elemento de mobilização. Para os defensores da decisão, o processo representou uma resposta institucional a uma tentativa de ruptura democrática.
A eleição presidencial de outubro deverá mostrar até que ponto o capital político acumulado por Bolsonaro permanece transferível para seu filho. Flávio tenta preservar a base eleitoral do pai enquanto amplia sua candidatura para alcançar eleitores que não se identificam integralmente com o bolsonarismo.
Um ano depois da decisão histórica do STF, Jair Bolsonaro está fora das urnas, mas continua presente no centro do debate eleitoral brasileiro. A disputa de 2026 coloca agora uma questão essencial para o futuro da direita no país: saber se o bolsonarismo consegue manter sua força eleitoral sob uma nova liderança ou se sua capacidade de mobilização permanece diretamente dependente da figura do ex-presidente.
Fontes: Folha de S.Paulo — Condenação de Bolsonaro completa um ano com STF em crise e clã na disputa pela Presidência | STF — Condenação dos oito réus do Núcleo 1 | STF — Pena de Jair Bolsonaro e dos demais condenados | STF — Acórdão da AP 2668 | Reuters — cenário político e investigação envolvendo Flávio Bolsonaro em 11/09





