Programa eleitoral do candidato do PL retoma propostas adotadas ou defendidas durante o governo Jair Bolsonaro e acrescenta medidas para reforço escolar, ensino técnico, inteligência artificial, robótica e financiamento do ensino superior
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) para a área da educação prevê mudanças que vão da alfabetização ao ensino superior. Entre as principais propostas estão a adoção prioritária do método fônico na alfabetização, a remuneração de estudantes com bom desempenho que ofereçam reforço escolar aos colegas e a substituição do atual modelo do Fies por um financiamento cujo pagamento dependeria da renda do beneficiário. As propostas foram reveladas nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, pela Folha de S.Paulo. (Folha de S.Paulo)
O conjunto de medidas integra o programa denominado “Plano para o Brasil Vencer o Atraso”, que ainda deverá ser formalmente apresentado à Justiça Eleitoral. Na educação, a candidatura concentra a comunicação em três eixos: alfabetização, reforço escolar e expansão do ensino técnico. (Folha de S.Paulo)
Algumas ideias recuperam políticas defendidas durante o governo de Jair Bolsonaro, enquanto outras representam novidades. Também existem propostas semelhantes a mecanismos que já fazem parte das políticas educacionais brasileiras, especialmente na distribuição de recursos condicionada a resultados. (Folha de S.Paulo)
Método fônico volta ao centro da alfabetização
Uma das principais propostas é priorizar o método fônico na alfabetização das crianças.
A abordagem procura ensinar a relação entre os sons da fala e as letras ou combinações de letras utilizadas para representá-los. Segundo a equipe de Flávio Bolsonaro, a proposta estaria fundamentada em experiências internacionais e evidências científicas. (Folha de S.Paulo)
A medida recupera uma orientação adotada durante o governo de Jair Bolsonaro. Naquele período, a Política Nacional de Alfabetização também atribuiu destaque à instrução fônica.
O assunto, porém, é alvo de debate entre especialistas. Uma das críticas é que o Ministério da Educação não deveria determinar uma única metodologia para todas as redes, considerando as diferenças entre Estados, municípios, escolas e práticas pedagógicas.
Olavo Nogueira Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação ouvido pela Folha, avalia que concentrar a discussão nacional sobre alfabetização na escolha de um método específico simplifica um problema educacional mais amplo. (Folha de S.Paulo)
Programa Acolher pagaria estudantes por reforço
Uma das novidades do plano é o chamado Programa Acolher.
A proposta prevê que estudantes com bom desempenho possam receber remuneração para oferecer reforço escolar a colegas que estejam com dificuldades de aprendizagem. As atividades poderiam ocorrer presencialmente ou através de meios digitais. (Folha de S.Paulo)
A lógica apresentada pela candidatura é criar uma rede de tutoria entre os próprios estudantes. Quem apresenta bom desempenho teria a possibilidade de obter rendimento enquanto ajuda outro aluno a recuperar conteúdos.
Ao mesmo tempo, a proposta desperta questões sobre implementação, supervisão pedagógica, critérios para escolha dos tutores e financiamento.
Nogueira Filho considera que a iniciativa possui características mais próximas de um programa localizado de uma secretaria de Educação do que de uma estratégia estruturante para todo o país. (Folha de S.Paulo)
Fies teria pagamento condicionado à renda
O ensino superior também aparece no programa.
Flávio Bolsonaro propõe substituir o atual formato do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) por um modelo de Empréstimo Contingente à Renda.
A principal diferença estaria na forma de cobrança da dívida depois da formação. Pela proposta, o valor das parcelas seria proporcional ao rendimento do beneficiário, e o recém-formado só teria obrigação de pagar quando estivesse empregado ou possuísse renda. (Folha de S.Paulo)
Atualmente, o Fies já considera o rendimento em determinadas situações, mas possui regras diferentes para amortização e pagamento. A candidatura pretende aprofundar a ligação entre o valor pago e a capacidade financeira do beneficiário.
A ideia procura enfrentar um dos problemas históricos dos programas de financiamento universitário: estudantes que concluem a graduação endividados, mas não conseguem imediatamente uma colocação profissional com rendimento suficiente para suportar as parcelas.
Vouchers para creches retornam ao programa
Outra proposta recuperada do período de Jair Bolsonaro é a utilização de vouchers educacionais para creches.
O plano estabelece que, onde não houver vaga disponível na rede pública, famílias possam receber recursos para utilizar uma instituição privada credenciada. (Folha de S.Paulo)
Uma iniciativa semelhante chegou a ser formulada durante o governo Bolsonaro no âmbito do Auxílio Brasil, mas não foi efetivamente implementada.
O argumento favorável aos vouchers é que eles poderiam ampliar rapidamente o acesso onde a rede pública não possui capacidade suficiente. O debate envolve, entretanto, questões sobre fiscalização das instituições privadas, qualidade do atendimento e utilização de recursos públicos.
Inteligência artificial e robótica entram no currículo
O programa também procura aproximar a educação básica das novas tecnologias.
Entre os conteúdos mencionados estão robótica, inteligência artificial, educação financeira e empreendedorismo. A intenção é ampliar a preparação dos estudantes para mudanças no mercado de trabalho e para profissões relacionadas à tecnologia. (Folha de S.Paulo)
A inclusão de IA nas escolas tornou-se uma discussão crescente à medida que ferramentas generativas passaram a ser utilizadas por estudantes e professores.
Implementar esse tipo de ensino em escala nacional, entretanto, depende não apenas da definição curricular. Infraestrutura, acesso a computadores e internet, formação de professores e desigualdades entre redes municipais e estaduais são fatores que interferem diretamente na capacidade das escolas de incorporar novas tecnologias.
Ensino técnico teria participação das empresas
Outra prioridade apresentada é a expansão da educação profissional e técnica.
O plano prevê mecanismos para aumentar a formação direcionada ao mercado de trabalho e menciona bolsas de ensino técnico financiadas por empresas. Parte dessas iniciativas possui equivalentes ou precedentes em políticas atualmente existentes. (Folha de S.Paulo)
A aposta no ensino profissionalizante procura aproximar estudantes de setores com procura por trabalhadores qualificados, particularmente áreas relacionadas a tecnologia e indústria.
A candidatura também pretende utilizar educação técnica como instrumento para aumentar a empregabilidade dos jovens.
Escolas poderiam permanecer abertas durante as férias
O programa propõe ainda que escolas permaneçam abertas durante os períodos de férias.
A ideia permitiria utilizar os espaços escolares para atividades adicionais, reforço de aprendizagem e outras iniciativas destinadas aos estudantes. (Folha de S.Paulo)
A implementação exigiria definir questões como disponibilidade de professores e funcionários, custos adicionais, segurança, alimentação e organização das atividades durante o período em que tradicionalmente não existem aulas regulares.
O plano também menciona atendimento específico para estudantes classificados como de altas habilidades.
Recursos seriam vinculados a metas
Outra proposta é ampliar a utilização de resultados educacionais como critério para a distribuição de recursos.
O Brasil já possui mecanismos desse tipo. Parte dos recursos do Fundeb considera indicadores e resultados alcançados pelas redes de ensino. A proposta da candidatura, entretanto, pretende ampliar significativamente essa lógica para o orçamento educacional. (Folha de S.Paulo)
O modelo cria um debate importante.
Defensores da remuneração por resultados argumentam que metas podem incentivar redes e escolas a melhorar o desempenho. Críticos alertam que uma aplicação inadequada pode aumentar desigualdades, principalmente se escolas que apresentam piores resultados — e que frequentemente atendem populações mais vulneráveis — acabarem recebendo proporcionalmente menos recursos.
Formação contínua dos professores está entre as propostas
A capacitação de professores também aparece no programa.
O plano prevê formação continuada dos docentes, associada às mudanças pedagógicas e tecnológicas propostas pela candidatura. (Folha de S.Paulo)
Essa dimensão ganha importância especialmente diante da intenção de ampliar conteúdos relacionados a inteligência artificial e robótica.
Inserir novas disciplinas ou tecnologias sem preparar os profissionais responsáveis pelo ensino poderia limitar o impacto das medidas. Além da capacitação, redes escolares precisariam avaliar infraestrutura e suporte técnico.
Plano muda o tom em relação às campanhas anteriores
A apresentação das propostas também sinaliza uma diferença de comunicação em relação às campanhas presidenciais de Jair Bolsonaro.
Em 2018, o programa educacional do então candidato dava grande destaque a temas relacionados a suposta doutrinação ideológica nas escolas. Em 2022, essa abordagem permaneceu, embora de maneira menos central. (Folha de S.Paulo)
Flávio Bolsonaro procura concentrar o seu plano em questões como alfabetização, desempenho escolar, ensino profissionalizante e tecnologia.
Segundo a Folha, essa escolha faz parte de uma tentativa de apresentar uma candidatura com perfil mais moderado em comparação com a comunicação adotada pelo pai em campanhas anteriores. (Folha de S.Paulo)
Isso não significa abandono completo de políticas associadas ao antigo governo. O método fônico e os vouchers para creches, por exemplo, retomam propostas anteriores.
Especialistas apontam avanços e limitações
A avaliação inicial do Todos Pela Educação apresentada pela Folha reconhece como positivo o facto de o programa priorizar problemas concretos da educação em vez de concentrar o debate em disputas ideológicas.
Por outro lado, a entidade aponta limitações na compreensão das políticas que já estão em funcionamento e dos desafios estruturais enfrentados pelo Ministério da Educação. (Folha de S.Paulo)
Essa distinção será importante durante a campanha.
Algumas propostas representam efetivamente mudanças de política pública. Outras ampliam mecanismos existentes ou apresentam uma nova formulação para iniciativas que já possuem precedentes no sistema educacional.
Educação ganha espaço na campanha de 2026
Com a aproximação do período mais intenso da campanha presidencial, a divulgação do programa educacional permite comparar de maneira mais concreta as prioridades apresentadas pelas diferentes candidaturas.
No caso de Flávio Bolsonaro, o desenho divulgado nesta quinta-feira combina continuidade e mudança.
O método fônico e os vouchers para creches recuperam ideias associadas ao governo de Jair Bolsonaro. O Programa Acolher, por sua vez, introduz a proposta de remunerar estudantes que atuem como tutores dos colegas. A reformulação do Fies procura vincular de maneira mais direta o pagamento da dívida à renda do formado, enquanto robótica e inteligência artificial aparecem como prioridades para modernizar a formação escolar. (Folha de S.Paulo)
A viabilidade de cada iniciativa dependerá de detalhes que ainda precisarão ser apresentados, como custos, fontes de financiamento, responsabilidades de Estados e municípios e mudanças legislativas necessárias.
Por enquanto, o programa divulgado em 13 de agosto de 2026 oferece uma primeira visão mais detalhada de como a candidatura de Flávio Bolsonaro pretende conduzir uma das maiores áreas de política pública do país caso vença a eleição presidencial.
Fonte:





